Enquanto houver mar

Enquanto houver mar

Mulheres, maturidade e a liberdade de continuar em movimento

Existe uma ideia bastante difundida de que envelhecer significa diminuir.

Diminuir o ritmo, os riscos, os sonhos. Como se, com o passar dos anos, o corpo precisasse ocupar cada vez menos espaço no mundo.

Mas basta olhar para o mar para perceber que existe outra maneira de envelhecer.

A água não pergunta quantos anos você tem.

Ela não quer saber se você começou a surfar aos dez ou aos quarenta. Não pergunta se você compete, se conhece a previsão de ondas ou se consegue fazer a manobra perfeita.

Ela pede presença.

Talvez por isso tantas mulheres encontrem nos esportes aquáticos uma relação que atravessa diferentes fases da vida. Algumas começam cedo e nunca param. Outras descobrem o surf, a natação, o mergulho ou o stand up paddle depois dos 40, 50 ou 60 anos.

E existem mulheres para quem o mar nunca foi apenas esporte. Foi trabalho, cultura, comunidade, sobrevivência e liberdade.

Mulheres que continuam

No Japão, as Ama, mulheres que praticam mergulho livre há séculos, continuam em algumas comunidades mergulhando em idades avançadas.

Na ilha de Jeju, na Coreia do Sul, as Haenyeo, conhecidas como “mulheres do mar”, também carregam uma tradição que atravessou gerações. Muitas continuam mergulhando aos 60, 70 e até 80 anos.

Elas não estão tentando vencer a juventude.

Elas simplesmente continuam.

Essa talvez seja uma das ideias mais bonitas que o mar pode nos ensinar: não precisamos abandonar aquilo que nos faz sentir vivas apenas porque o nosso corpo mudou.

Nunca é tarde para começar

Na Nova Zelândia, Nancy Meherne começou a surfar por volta dos 40 anos e continuou entrando no mar por décadas. Aos 90, ainda era vista surfando em Scarborough Beach.

Sua história quebra uma ideia muito comum: a de que existe uma idade certa para começar alguma coisa.

Não é preciso começar jovem.

Não é preciso ser excelente.

Às vezes, basta querer entrar na água.

E talvez essa seja uma das maiores liberdades da maturidade: fazer algo não para provar nada, mas simplesmente porque gostamos.

O corpo muda. A relação com a água também.

Envelhecer praticando um esporte não significa tentar manter o mesmo corpo ou a mesma performance para sempre.

É aprender a escutar.

Aos 20, talvez você queira velocidade. Aos 40, força. Aos 50, desafio. Aos 60, presença.

A água oferece resistência, mas também sustentação. Obriga-nos a prestar atenção à respiração, ao equilíbrio, ao vento, à maré e ao próprio corpo.

Por alguns instantes, ela nos tira do excesso de pensamento e nos devolve ao presente.

E existe ainda outra coisa: o pertencimento.

As amizades que surgem no mar. O grupo que se encontra para surfar. A conversa depois da água. A queda que vira risada. A sensação de fazer parte de alguma coisa.

À medida que envelhecemos, esses espaços espontâneos de convivência podem diminuir. O esporte pode devolvê-los.

Sem cargo. Sem obrigação. Sem precisar desempenhar nenhum papel.

Só nós mesmas, dentro da água.

Talvez não seja sobre desafiar a idade

Gostamos pouco dessa expressão.

Porque ela transforma o envelhecimento em um adversário, como se toda mulher que continua surfando ou nadando depois dos 50 precisasse provar alguma coisa.

Talvez não.

Talvez o mais bonito seja aceitar que o corpo muda — e continuar encontrando maneiras de habitá-lo.

A maturidade pode trazer uma relação diferente com a performance, com o risco e com a própria imagem.

Você já sabe que não precisa ser a melhor.

Pode aprender algo novo aos 45. Começar a nadar aos 53. Descobrir o surf aos 60. Ou simplesmente sentar na areia e observar o mar quando o corpo pedir descanso.

Tudo isso também é estar em movimento.

A vida não fica menor porque o tempo passou.

Ela muda de forma.

O corpo muda. Os desejos mudam. A força muda. Mas a curiosidade pode continuar. O prazer pode continuar. A aventura pode continuar.

E o movimento também.

Enquanto houver mar, haverá uma nova possibilidade de movimento.

E talvez envelhecer seja, entre tantas coisas, aprender a estar cada vez mais presente na própria vida.

Por um mundo mais azul.

— Tropical Magia